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O Martírio das Palavras Assassinas

Autores publicados
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Por Lucien Ardent; 2026

Não há queda maior que se vender por um punhado de resmas. Quantos talentos vi pelo Brasil decaírem por prestígio, seja por sua presença ou por sua ausência? Ser ou não ser não é a questão nesta civilização. Como estrangeiro, adotei esta terra como cultura, mas confesso que cultura é um termo estrangeiro aqui. Existem dois países na literatura brasileira; um é o da literatura, e o outro é o denunciado pela literatura que denuncia. Autores como Machado e Barreto passaram a vida para dar à literatura brasileira uma alma, já que um corpo havia, mas ele não era em questão autêntico. Para aqueles que querem entender a literatura brasileira, há duas literaturas: uma oficial, escolar, e outra subalterna, reacionária, reagente àquela. Às vezes é difícil separar as duas, pode uma obra de um autor passar para o outro lado, tudo depende das nuances culturais e políticas que mudam, como diz Lima Barreto, de trinta em trinta anos. Machado de Assis é o único caso emblemático de autor que é querido por todos os espectros da vida cultural e política do país, respeitado por inimigos e amigos da literatura, sábios e ignorantes, isto o faz “rei” da literatura brasileira. Já, saindo de Casa de Assis, nós não encontraremos a mesma unanimidade e aceitação com outros autores: Lima Barreto, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José de Alencar. Todos entram numa disputa política para uma disputa política infindável. Mas uma fórmula de discernimento eficiente é saber quem está atacando o quê: os autores da literatura que denuncia, denunciam a própria falta de disputa na vida cultural, eles foram colocados no lado de fora dos salões, e agora disputam seus espaços, reivindicam seus lugares. Eles denunciam os vendedores de resmas, são os escritores que escrevem para bajular a cultura do Brasil. Estes são os falsos escritores do momento, segundo os denunciantes. Então, para nós estrangeiros, temos os dois tipos de literatura, a que denuncia e a que é denunciada. A única tradição literária no Brasil, de fato, é a denúncia, se fosse brasileiro, chamá-la-ia de Literatura Denuncista, mas tal nome pode remeter a nuances culturais negativas atualmente, como a prática de linchamento moral e cultural a inimigos políticos. Aliás, o linchamento moral, intelectual e cultural tornou-se em uma forma comum, sobretudo na era da internet, para se derrubar detratores, usados por amigos e inimigos; autores contemporâneos popularizaram termos como Ad Hominem, Sic et Nom, e outros termos latinos. Nestes últimos tempos, a disputa entre literatura denunciante e denunciada tornaram-se numa disputa mesmo pela sobrevivência, isto porque em eras antigas ambas tinham seu espaço, e no jornalismo brasileiro, ágora de disputas culturais, sempre houvera escritores dos mais diversos segmentos e calibres. Todos os grandes autores do Brasil eram jornalistas, não porque eram primeiro jornalistas e depois escritores, mas porque eram escritores, a atividade pública era algo comum. Mas nas últimas décadas esta disputa perdeu os dois lados e ficou apenas com um lado, a que seria a literatura denunciada, isto é, aquela literatura que acaricia a sociedade com suas ideologias, passou a ser a única aceita em todos os ambientes públicos e privados. Então, hoje, temos que a literatura denunciada tornou-se na literatura oficial, e a literatura denunciante tornou-se na reacionária, subversiva ao status quo. É importante destacar outro ponto: a literatura reacionária no Brasil tem o status de revolucionária, seria equivalente a literatura de movimentos anticulturais, e a literatura revolucionária pelo mundo é tida como a literatura oficial no Brasil, aquela que o status quo aceita como a única legítima. Portanto, a fama de País de Contrastes vale não só para a sociedade e para a geografia, mas para a cultura de modo geral.


Autores que outrora marcaram grande influência no Brasil, hoje, não conseguiriam a mesma abertura, pois os “denunciados” tornaram-se monopólios dos meios de comunicação. Aqui está a razão pela qual todos os que estudam a literatura brasileira contemporânea não conseguem ver nela a mesma qualidade da antiga: é porque não veem os denunciantes. Mas, a razão para esta descrição fenomênica me veio após interagir com alguns jovens escritores aposentados. Sim, aposentados jovens! São jovens muito ansiosos que abandonaram a vida cultural porque não encontraram apoio do ambiente ao redor. Mas a razão de não terem apoio é pelo fato de serem autores reacionários, isto é, críticos da literatura denunciada. Seria natural este isolamento. Quase todos eles têm algo em comum, influenciados por um autor crítico ferrenho e evidente da Literatura Denunciada, Olavo de Carvalho, tornou-se ele o maior expoente da Literatura Denuncista das últimas décadas, influenciando uma geração de escritores.


Mas onde estão os autores denunciantes contemporâneos? Se aplicarmos o conceito de que autores denunciantes são aqueles que denunciam o estado de coisas no Brasil, eles morreram, ou estão calados, ou não sabem o que dizer (escrever, quero dizer), estão doentes, estão com medo. Sim, se vê que há medo entre os autores denuncistas do Brasil que querem denunciar o estado de coisas. Mas por qual razão? Este mistério envolve muitas coisas, é mais fácil dizer de quem eles têm medo: da família, da sociedade em geral, da classe política, do mundo econômico. Se um homem é conhecido pela polêmica e inteligência, a menos que viva da própria polêmica, ele perderá emprego, amigos, mulher, família, perderá oportunidades, perderá parcerias, todos o abandonarão até não restar ninguém, exceto, talvez, o seu gato, animal preferido dos escritores brasileiros, por uma razão quase mística. Ao longo dos últimos anos pude ver o quanto estes jovens escritores não conseguiram se sobressair de seu meio social, pois não têm espaço em jornais, em clubes ou ambientes literários pujantes como havia no início do século XX. Estes autores estão muito isolados, e pior, odeiam-se mutuamente com ódio ferino, pude conversar com alguns deles, me deu lástima: ainda presos numa masmorra imaginária, não conseguiram se desvincular do ódio aos inimigos e convertê-lo em palavras assassinas, capazes de derrubar os denunciados, como faziam os escritores brasileiros denunciantes. Digo e repito: a única tradição literária brasileira de fato é a literatura denuncista, aquela que denuncia a literatura de engajamento social dos movimentos culturais da moda.


Dito isto, não quero dizer que literatura boa seja esta ou aquela, na verdade, os estudiosos da literatura brasileira terão bastante trabalho e verão que tanto de um lado, como de outro, há literatura denunciante, e até os denunciados que reivindicam este status, é porque é o status da verdadeira literatura brasileira, isto é, aquela que sobrevive às modas. Quem de fato limpará e dirá o que é cada coisa, são os próprios autores brasileiros da literatura denuncista. Eu sei que me faço difícil de entender, porém, não será tão difícil se nos debruçarmos sobre este cenário cultural e ler os livros de fato, e acompanhar toda esta querela. Foi por isto que afirmei que existem dois países na literatura brasileira: o país da literatura do Brasil, e o país denunciado da literatura do Brasil pela literatura denunciante, cabe estudo e refino para saber a diferença entre eles. Há um segundo sentido pelo qual afirmo isto: a literatura brasileira, é ela mesma um mundo a parte no Brasil, e sua grande dificuldade foi se unir ao país de fato ao qual ela diz pertencer, pois de fato, o que houve é uma grande separação. Ao longo de dois séculos esta literatura dita brasileira é um esforço contínuo de se fazer ela mesma; ser ou não ser brasileira, não é a questão, mas de que modo é ser brasileira? O que é ser brasileira? Portanto, é uma identidade ainda sem forma, e que só se forma pela negação, pela denúncia daquilo que não é. Quase toda literatura afirmativa da identidade nacional foi renegada como falsa literatura pela literatura denunciante, foi assim que o peso recaiu sobre Macunaíma e outras obras tidas de prestígio. Este é outro traço desta literatura denunciante, o de ser negadora, ela se afirma pela negação, aquilo que ela diz não ser, contudo, ela reivindica ser ela mesma a autêntica em um país que não a reconhece. Tal disparidade cultural não vi em nenhuma outra nação, o que obriga a ver o Brasil, esta cultura que adotei, como uma civilização distinta das demais. A China aceita suas escolas de pensamento, a Índia aceita seus vedas, Israel sua Torá e seus profetas, os EUA seus pais fundadores e defensores, a França sua intelligentsia, e tantos outros, mas o Brasil não aceita cânon. O único cânon brasileiro da literatura é um que os denunciados querem fazer crer ser a tradição literária brasileira, mas os denunciantes dizem que esta literatura não é autêntica porque não representa o Brasil, e sim uma imagem caricata que uma pseudo elite adotou, a fim, sobretudo, de causar boa imagem para nós, estrangeiros! Eu me sinto absorto diante desta peripécia, e não sei como dar um fim. Se você quer estudar literatura brasileira, saiba que existem estas duas classes de literatura, extremamente opostas entre si, como um espelho invertido: a literatura denunciada é aceita pela sociedade como sua representação cultural, porém caricata, e a literatura denunciante que denuncia e revela a sociedade brasileira como ela é, mas sem ser aceita pela sociedade brasileira, sobretudo de seu tempo, como legítima. Sinta-se à vontade para entrar nesta querela, e para começar, o único ponto em comum de todos os lados é Machado de Assis, porque de resto é, para usar uma expressão brasileira, “ladeira abaixo”.

 
 
 

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