Mais de Lima Barreto e Os Bruzundangas
Lima Barreto foi um crítico cultural importante em seu tempo. Mas sua influência cultural vai muito além de polêmicas ou folhetins jornalísticos. Como os grandes intelectuais brasileiros, o jornalismo tornou-se um lugar privilegiado da res pública, isto é, da coisa pública, e os escritores brasileiros sempre entenderam que o jornalismo é o espaço do debate público e do enriquecimento de ideias. Contudo, a história não é tão linearmente positiva sobre o jornalismo e o papel triunfal dos grandes escritores e intelectuais na cultura brasileira. Com o passar do tempo, o crescente poder do Estado, e de seu Estamento, aparelharam o jornalismo tornando-o menos uma ágora moderna que um retransmissor das ideias dominantes da cultura política. Então, houve a degradação do jornalismo em duas partes distintas: uma oficial, aquela aceita pelo Estamento, e aquela que poderíamos chamá-la de não-cortês, não-cortês porque não é aceita pela corte, quer dizer, a elite política-cultural-econômica de então.
Essa má tendência sempre houve na vida pública brasileira, um país jovem necessitado de se autoafirmar perante as nações como lugar onde algo acontece de bom, nada pior do que a mimética cultural para fomentar a impressão de vanguarda. O espaço público como lugar de ascensão deu vasão às vaidades sociais, despertando o vício pelas aparências e fanfarronices.
Lima Barreto nasce, cresce e julga tal sociedade e tais vícios quando eles ainda estavam apenas começando. De lá para cá, suas críticas tornaram-se num espelho vívido e crítico de um cenário quase distópico, onde o grotesco e o aparente tomam lugar, não pela ausência, mas por si ao autêntico, a tal ponto da aparência de inteligência ser mais importante que a inteligência, e esta não ter espaço real na sociedade, e é até mesmo criticada duramente por ela. É como ser implacável com o talento real, por ser real, mas ser conivente com o falso, por ser falso.
O jornalismo como ágora de novas ideias tornou-se numa fonte corruptora da sociedade, ocupando o lugar da inteligência, e em vez de elevar bons autores ao cenário público, ocultou-os por falar a verdade, enquanto que as aparências de inteligência ocuparam o lugar. Hoje em dia, a autoridade não é um escritor que se dedica a um tema, e sim o jornalista ou jornal que o valida para o público. O verdadeiro é o que passa no jornal, não o que uma investigação séria de anos demonstra em livros ou outras formas arcaicas de dizer a verdade. O que funcionou no mundo todo, em todas as civilizações, no Brasil é desfuncional.
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