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Novo Livro dos Tempos do Sol e da Lua: Símbolos universais e civilizações: o que une incas, chineses, árabes e romanos?

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A distância entre Machu Picchu, a Cidade Proibida, Meca e o Fórum Romano parece imensa. Muda a língua, muda a arquitetura, muda o modo de vestir, muda a comida, muda o nome dos deuses. Ainda assim, quando se observa a estrutura simbólica dessas civilizações, surge uma impressão incômoda: a humanidade repetiu certas formas com uma insistência quase ritual.

Vista panorâmica de uma cidade antiga construída entre montanhas ao amanhecer.
Civilizações diferentes organizaram o espaço como se ele espelhasse o céu.

O ensaio de Thiarles Soares parte justamente dessa suspeita. Por trás das diferenças mais visíveis, há imagens recorrentes que ajudaram povos antigos a organizar o poder, o tempo, a morte, o trabalho e a vida coletiva. Essas imagens não pertencem a uma cultura só. Elas aparecem como símbolos universais, não porque todos tenham copiado uns aos outros, mas porque enfrentaram perguntas parecidas.


Onde fica o centro do mundo? Quem pode governar? Como o céu se relaciona com a terra? O tempo é um ciclo ou uma história? O sacrifício sustenta a ordem? A cidade repete o cosmos?


Essas perguntas atravessam incas, chineses, árabes e romanos. Também ajudam a entender por que a civilização cristã introduz algo novo diante de tradições antigas como a japonesa, especialmente na maneira de ver o tempo, a pessoa e o destino da história.



O centro do mundo sempre precisou ser marcado


Toda sociedade precisa responder a uma pergunta básica: onde estamos?


A resposta nunca foi apenas geográfica. Para os povos antigos, o lugar de viver não era um ponto neutro no mapa. A cidade, o templo, a montanha sagrada, o palácio e a praça criavam um centro. Esse centro não servia só para orientar caminhos. Ele dizia ao povo que havia uma ordem acima do caos.


Entre os incas, as montanhas tinham forte carga sagrada. O mundo andino organizava a vida a partir da relação entre terra, astros, ancestrais e autoridade. Cusco, cujo nome costuma ser associado à ideia de “umbigo” ou centro, não era apenas uma capital política. Era um centro simbólico.


Na China antiga, o imperador era chamado de Filho do Céu. A capital e o palácio expressavam uma ordem que ligava céu, terra e governo. A política não se sustentava somente pela força, mas por uma ideia cósmica de harmonia. Se o soberano perdia a virtude, perdia também legitimidade.


Roma fez algo parecido de outro modo. O espaço urbano, os templos, as vias, os marcos e o fórum davam forma visível à ideia de ordem romana. A cidade não era só moradia. Era uma imagem do mundo civilizado, cercado pelo que Roma via como desordem, barbárie ou periferia.


Entre os árabes, especialmente depois do Islã, a centralidade de Meca organiza tanto a oração quanto a imaginação espiritual. A direção do corpo durante a prece aponta para um centro comum. A comunidade não se define apenas pelo território, mas por uma orientação partilhada.


O detalhe muda. A estrutura permanece. Uma civilização costuma nascer quando um povo consegue transformar espaço em sentido.


O céu legitimava a terra


O poder antigo raramente se apresentava como simples administração. Governar era participar de uma ordem maior.


O soberano não era apenas alguém que mandava. Ele ocupava um lugar de mediação. Ligava o visível ao invisível, o povo aos antepassados, a cidade aos deuses, a lavoura aos ciclos do céu. Mesmo quando não era considerado divino, sua autoridade dependia de alguma forma de consagração.


Nos Andes, o Inca se vinculava ao Sol. Na China, o mandato celestial sustentava a autoridade do imperador. Em Roma, a religião cívica fazia parte da estabilidade do Estado. Nos mundos árabes islâmicos, o poder político se relacionou de maneiras variadas com a lei religiosa, a comunidade dos fiéis e a memória profética.


Esse padrão mostra algo importante. Para muitas civilizações antigas, a política sem cosmologia era impensável. A pergunta “quem governa?” vinha junto com outra: “quem representa a ordem do mundo?”


Essa união entre céu e terra também explica por que crises políticas eram lidas como crises espirituais. Secas, derrotas militares, epidemias e desastres podiam ser entendidos como sinais de desordem. A sociedade antiga não separava facilmente natureza, moral, religião e Estado.


A modernidade tentou romper essa ligação, ao tratar o poder como contrato, técnica ou gestão. Mesmo assim, o impulso simbólico não desapareceu. Bandeiras, hinos, monumentos, juramentos e rituais públicos mostram que o poder ainda precisa de encenação. O ser humano continua procurando sinais de legitimidade.


O tempo antigo era mais cíclico do que histórico


Uma das chaves do ensaio está na noção de tempo.


Muitas civilizações antigas viveram sob forte percepção cíclica. As estações voltam. Os astros repetem percursos. As colheitas seguem ritmos. Os ritos reencenam origens. As festas recuperam um acontecimento primordial. A vida coletiva busca permanecer alinhada com uma ordem que se repete.


No mundo inca, o calendário agrícola e ritual conectava trabalho, festas e observação celeste. Na China, os ciclos dinásticos se ligavam à ideia de ascensão, decadência e renovação do mandato. Em Roma, datas religiosas e comemorações cívicas mantinham vivo o vínculo entre passado fundador e presente político.


No Japão antigo, essa percepção também aparece de forma marcante. Mitos de origem, culto aos ancestrais, sacralidade imperial, rituais sazonais e reverência à natureza criavam uma relação íntima entre comunidade e continuidade. O mundo não precisava caminhar para uma conclusão definitiva. Ele precisava manter a harmonia entre forças visíveis e invisíveis.


Aqui aparece uma diferença decisiva em relação à civilização cristã.


O cristianismo não eliminou os ciclos da vida. A liturgia cristã também organiza o ano, repete festas, recorda nascimento, morte e ressurreição de Cristo. Mas ele introduz uma noção de história com começo, queda, promessa, encarnação, redenção e consumação. O tempo não é apenas repetição. Ele tem direção.


Essa diferença muda tudo.


Se o tempo é só ciclo, a tarefa principal é manter ou restaurar a ordem. Se o tempo também é história, a sociedade passa a imaginar transformação, cumprimento, juízo, conversão e futuro final. A pessoa deixa de estar presa apenas ao lugar que ocupa na ordem cósmica. Ela se torna alguém chamado a responder dentro de uma história moral.


A civilização cristã trouxe uma novidade antropológica


A pergunta do texto é provocativa: o que a civilização cristã tem de novo que o Japão antigo não tem?


A resposta não deve ser lida como desprezo pelo Japão antigo. A tradição japonesa possui riqueza própria, refinamento estético, profundidade ritual e formas sofisticadas de convivência com a natureza. A questão é outra. Trata-se de perceber diferenças simbólicas.


No Japão antigo, a ordem social se ligava fortemente à ancestralidade, à continuidade, à hierarquia, aos ritos e à sacralidade do imperador. O indivíduo existia dentro de uma rede de pertencimentos. Sua identidade vinha do lugar que ocupava no clã, na família, na aldeia, no serviço e na ordem cósmica.


A civilização cristã, ao se formar, preservou várias estruturas antigas. Também teve impérios, reis, ritos, calendários, cidades sagradas e símbolos de centro. Mas acrescentou uma tensão nova. Cada pessoa passa a ter valor diante de Deus, não apenas por sua posição social, seu sangue, sua cidade ou sua função ritual.


Essa ideia não se realizou de modo puro na história. Sociedades cristãs também praticaram violência, exclusão, dominação e contradições graves. Ainda assim, no plano simbólico, a noção de pessoa criada à imagem de Deus abre uma força diferente. O escravo, o estrangeiro, a viúva, o órfão e o pobre passam a aparecer no centro do drama moral.


A novidade cristã não está apenas em uma doutrina. Está em uma mudança de eixo:


A ordem antiga tende a perguntar qual lugar cada um ocupa no cosmos

O rito preserva a continuidade do mundo

A autoridade representa uma ordem sagrada

O passado fundador organiza o presente

A visão cristã pergunta também qual destino eterno cada pessoa carrega

A conversão transforma a vida dentro da história

A autoridade pode ser julgada por uma lei moral superior

O futuro prometido também reorganiza o presente


Essa mudança ajuda a entender por que a civilização cristã produziu conflitos internos tão intensos. Ela herdou impérios, hierarquias e símbolos antigos, mas colocou dentro deles uma pergunta corrosiva: e se o menor também tiver dignidade absoluta?


Close-up de um manuscrito antigo ao lado de uma pequena cruz de madeira.
A tradição cristã deslocou a pergunta sobre o cosmos para a pergunta sobre a pessoa.

Símbolos parecidos não significam sociedades iguais


Comparar civilizações exige cuidado. Dizer que incas, chineses, árabes e romanos compartilham símbolos não significa apagar suas diferenças. Cada uma dessas civilizações tem língua, memória, conflitos e formas próprias de imaginar o mundo.


O risco de toda comparação ampla é transformar culturas vivas em peças de museu. Por isso, a leitura simbólica precisa evitar duas armadilhas.


A primeira é o exotismo. Ele trata povos antigos como estranhos absolutos, quase incompreensíveis. A segunda é a simplificação. Ela afirma que tudo é a mesma coisa, apenas com nomes diferentes.


O caminho mais fértil fica entre esses extremos. Os símbolos se repetem porque a experiência humana tem constantes. Toda sociedade precisa lidar com nascimento, morte, autoridade, medo, desejo, escassez, guerra, memória, culpa e esperança. Mas cada povo organiza essas constantes com sua própria linguagem.


O Sol inca não é o mesmo que o Sol romano. O céu chinês não é o mesmo que o paraíso cristão. A centralidade de Meca não é a mesma centralidade de Roma. A montanha japonesa não é a mesma montanha andina. Ainda assim, todos esses símbolos respondem ao impulso humano de ligar a vida cotidiana a uma ordem maior.


Essa é a força da análise simbólica. Ela não reduz a história a economia, guerra ou tecnologia. Ela pergunta pelo imaginário que tornou essas coisas possíveis.


A cosmologia antiga ainda mora em nós


Pode parecer que esses temas pertencem a um passado distante. Não pertencem.


A sociedade atual ainda vive de cosmologias, mesmo quando não usa esse nome. A diferença é que muitas delas se tornaram invisíveis. Trocaram templos por sistemas, mitos por narrativas políticas, ritos religiosos por hábitos de massa, reis sagrados por figuras públicas idealizadas.


Ainda buscamos centros. Ainda criamos calendários. Ainda repetimos cerimônias. Ainda sacralizamos lugares, causas, bandeiras, datas e personagens. Ainda queremos acreditar que a vida coletiva tem uma ordem.


Quando essa ordem entra em crise, a sociedade reage de modo parecido com os antigos. Procura culpados, interpreta sinais, anuncia decadência, promete restauração, inventa novos ritos de pertencimento. A cosmologia não desaparece. Ela muda de roupa.


Por isso, pensar os símbolos universais e civilizações não é exercício arqueológico. É uma forma de entender por que certas estruturas continuam ditando comportamentos. A política moderna, a identidade nacional, a ideia de progresso, os conflitos religiosos, as disputas culturais e até a tecnologia carregam imagens antigas em novas embalagens.


O humano técnico ainda é simbólico. O humano secular ainda busca sagrado. O humano moderno ainda quer um centro.


O ensaio de Thiarles Soares aponta para uma pergunta maior


O mérito da reflexão proposta por Thiarles Soares está em recusar uma visão rasa de civilização. Povos não se organizam apenas porque precisam comer, construir estradas ou vencer guerras. Eles se organizam porque precisam dar forma ao invisível.


Essa forma aparece em templos, leis, calendários, palácios, genealogias, mitos e ritos. Aparece também na maneira como uma comunidade entende culpa, pureza, honra, destino e salvação.


Incas, chineses, árabes e romanos têm em comum a tentativa de converter o cosmos em sociedade. Cada um, a seu modo, buscou transformar ordem celeste em ordem humana. O Japão antigo participa dessa mesma lógica ao ligar natureza, ancestralidade e poder. A civilização cristã entra nessa conversa ao deslocar o centro para uma história de salvação e para a dignidade da pessoa diante de Deus.


A grande pergunta que fica não é apenas o que os antigos acreditavam. É o que nós ainda acreditamos sem perceber.


Toda sociedade desenha um mapa do mundo. Algumas chamam esse mapa de mito. Outras chamam de religião. Outras chamam de razão, progresso, tradição ou identidade. O nome muda menos do que imaginamos. O desafio é reconhecer quais símbolos nos governam antes que eles governem por nós.


No novo livro de Thiarles Soares, Livro dos Tempos do Sol e da Lua, o autor explora pela primeira vez e com vigor os símbolos universais em torno da formação das civilizações e como essa percepção cosmológica nos atinge até os dias de hoje.


O Livro dos Tempos do Sol e da Lua em breve será publicado pela Nova Ágora.


 
 
 

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